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ESMOLAS

3 de jan de 2011

Troquei minha MOCHILA por uma LANTERNA


Anualmente, milhares de pessoas se encontram no Universo Paralello, um dos maiores festivais de música eletrônica do mundo. Celebrando a virada do ano gregoriano, esta grande rave conta com a presença dos mais ilustres DJs da atualidade.
No reveillon de 2010/2011, a organização resolveu restringir o número do público e renomeou o evento como 303 Art Festival.
Para sediar a festa foram escolhidas as praias paradisíacas de Caraíva, um vilarejo de pescadores no extremo sul da Bahia também habitado por índios Pataxós da Aldeia Imbiriba.

Chegando ao local, após passarmos pela breve revista feita na entrada, logo nos encontramos com Tadeu, um amigo que havia chegado um dia antes e que estava supostamente encarregado de reservar um lugar decente no camping.
Fomos então informados por ele de que já estava tudo lotado e o melhor pico para acampar era ali mesmo, próximo à entrada.

Discordei por diversos motivos, dentre os quais se destacavam a longa distância a ser percorrida diariamente entre a barraca e o main floor, o isolamento e conseqüente baixa movimentação do local, propiciando furtos e a proximidade com a mata fechada, onde seríamos intrusos do habitat de animais selvagens. Mas foi em vão.
Todos concordaram em ficar.

Como não valia à pena me aventurar solitário por terras desconhecidas, armei a barraca a contragosto e arrumei meus pertences em seu interior.
Já com endereço definido, partimos em direções diferentes para curtir tudo que o festival tinha à oferecer, cada um à sua maneira.

Carregando na mochila tudo o que eu julgava necessário para aproveitar ao máximo o primeiro dia sem ter que retornar a barraca, fiz minha caminhada até o palco principal, onde passei a maior parte do tempo e dancei até as pernas pedirem arrego.
Fiz também algumas compras com os hippies, um budista e o pessoal da Inspire-se.

Ciente de que poderia dormir a hora que desejasse, mas acordaria obrigatoriamente com o nascer do Sol, decidi que o dia já tinha rendido o suficiente e dei início a jornada de volta ao lar.

No entanto, à noite o cenário parecia completamente diferente, sem falar nas centenas de novas barracas que se multiplicavam a cada instante.
Cheguei ao bairro onde mais cedo se localizava a nossa vila e a procurei, sem sucesso, por mais de uma hora.
Exausto, mas calmo como o Dalai Lama, vasculhei cada metro quadrado daquele maldito camping e nem sinal das nossas barracas.
Quando as últimas gotas de esperança se foram, apelei para a ajuda de um estranho. Olhei ao meu redor e avistei uma única barraca com o interior iluminado por uma forte luz.
Caminhei até ela e travei um curto diálogo com as moradoras:
_ Boa noite... Será que dá pra vocês me emprestarem uma lanterna pra eu ver se acho a minha barraca por aqui? Eu estou perdido.
_ Nós já estamos saindo pro main floor - alegou uma das garotas - só falta ela acabar de escovar os dentes.
A outra, por sua vez, retrucou gentilmente:
_ Que isso... Pode emprestar pra ele.
Sensibilizado pelo gesto solidário, ingenuamente executei a mais estúpida e absurda das ações; entreguei-lhes meu bem mais precioso como garantia de que voltaria para devolver a lanterna.
Foi a última vez que vi minha querida mochila.

Dei uma voltinha pelos arredores. Estava muito escuro e para qualquer lado que eu apontasse o feixe de luz da lanterna, a imagem era a mesma. Barracas e mais barracas.
Não demorou muito para que eu percebesse que estava novamente perdido e que a barraca das meninas já estava apagada.
Ao tomar consciência do tamanho da minha cagada, já era tarde. Mas ainda assim às procurei por longas horas.

Munido apenas de uma lanterna com pilhas fracas, eu me sentia como um empresário milionário que fora a falência, perdendo tudo e cujo triste destino seria passar os dias que lhe restam no centro da cidade comendo papelão e gritando contra o vento.
Foi no limiar da sanidade que meus amigos me encontraram vagando por uma estradinha de terra com a face embebida em lágrimas.
Claro que eles não entenderam nada quando contei que havia trocado minha mochila com todo o meu dinheiro, aproximadamente R$450, e documentos por uma lanterna.
Mas ao menos esclareceram a maior das minhas dúvidas naquele momento.
O paradeiro da minha barraca.

Durante a tarde, a galera se tocou que aquele obviamente não era um bom lugar para acampar e simplesmente se mudaram pra cima do morro, perto da tenda Alternativa.
Não satisfeitos em remover todos os meus pontos de referência, ainda cobriram minha barraca com uma lona, tornando-a completamente irreconhecível.

No dia seguinte voltei a procurar pelas donas da lanterna, mas falhei miseravelmente.
Sabendo que minha barraca estava coberta com a lona azul, ficou fácil encontrá-la à luz do dia.
Tive que quebrar o ziper para entrar, pois a chave do cadeado também estava na mochila.
Agora eu tinha apenas uma ficha de UM REAL sem utilidade alguma e à partir daquele ponto meus fiéis amigos bancaram as minhas refeições.
Fiz visitas diárias ao Achados e Perdidos, mas nenhuma delas teve resultados positivos.

Criei então, como última alternativa, a placa nonsense que bem posicionada ganhou certa notoriedade, mesmo com um erro crasso de português, causando curiosidade em quem passava.
Deixei a lanterna pendurada na Inspire-se, caso alguém aparecesse com a mochila para "destrocar-mos".

Cada pessoa que conheci e relatei a história se indignava e repudiava a atitude das meninas. Elas com certeza visualizaram a placa. Mas eu insistia em defendê-las. Logo logo a minha mochila iria aparecer. Elas eram boas pessoas. Honestas e solidárias.

Doce ilusão.



UPDATE:
06/01/11

A polícia de Ituberá (a 470km de Caraíva) ligou para informar que encontram a minha carteira.
Felizmente nela ainda estavam os meus cartões de crédito e débito (já cancelados), plano de saúde e carteira de motorista. Mas a identidade fora subtraída para fins misteriosos.
O Boletim de Ocorrência referente ao furto já foi feito para evitar futuros transtornos.

4 comentários:

ALVES disse...

ADFKJADFKJHADKJHADJKAD

Ache-as no Orkut.

Faça montagens com as putas.

Espalhe entre os amigos dela.

Deleite-se.

Ph00k4 disse...

Nem vi o rosto delas no escuro :(

Neto Robatto disse...

Era uma lanterna bonita?!

Ph00k4 disse...

Não, era essa porcaria daqui...
http://i51.tinypic.com/2lt6655.jpg